Entrevistas - Cilinho

Otacílio Oliveira Pires de Camargo. Não são muitos os são-paulinos que conhecem este nome. Sendo assim, que tal chamá-lo de Cilinho, que começa com C de campeão? Daí sim. É impossível esquecer o trabalho corajoso do treinador que ficou conhecido, na década de 80, como um mestre em transformar jovens promissores em craques. Müller, Silas, Ronaldão e Sidney foram alguns dos Menudos do São Paulo, apelido em alusão ao grupo porto-riquenho que levava as meninas a loucura. Os meninos de Cilinho faziam praticamente a mesma coisa - a diferença é que o êxtase ficava por conta dos fanáticos tricolores, outrora acostumados a colecionar títulos. Como os Paulistas de 1985 e 1987, em uma época que o Paulistão era um torneio extremamente competitivo e valorizado. Ou o Brasileiro de 1986, este sob a batuta de Pepe. Outro feito de Cilinho foi a indicação de Raí para o tricolor, quando seu irmão famoso, Sócrates, estava ajudando o time do Parque São Jorge a levá-lo para lá. E o chapéu recebido de Vicente Matheus em 1978, quando o Doutor, com um pé no São Paulo, fora para o Corinthians, estava devolvido. E, com certeza, todo este trabalho de Cilinho foi fundamental para que outro mestre, Telê Santana, conquistasse os maiores títulos de nossa história. Porém, a pauta da entrevista exclusiva que Cilinho concedeu para o Tricolor Paulista.Net não foi saudosista. Preferimos saber do treinador o que vem sendo feito e quais os resultados de seu trabalho com o time de Aspirantes, no CT de Barueri, à frente do cargo que ocupa há quase dois anos - o de coordenador das categorias de base. Cilinho também fala sobre o trabalho de reciclagem com Gabriel, Rico, Leonardo Moura e Diego Tardelli, e diz o segredo para o time profissional do São Paulo voltar a ser um o bicho papão de outros tempos.

No ano passado jogamos a Copa Estado de São Paulo. Por que não criamos um time B, com as possíveis revelações, para também começar jogando nas divisões de baixo do Paulistão? O senhor já propôs isto para a diretoria ou não há interesse?
Cilinho - O São Paulo disputa a Copa Estado de São Paulo representado pela equipe de aspirantes. Houve até um equívoco da federação, classificando nossa equipe de São Paulo B. O São Paulo é primeiro e único. Nós temos a equipe profissional, lá na Barra Funda, e, em Barueri, as categorias de base - dente de leite, infantil, juvenil, juniores e aspirantes, que conta com jogadores que aspiram a uma oportunidade na equipe profissional. A competição da maior importância é a Copa São Paulo e depois o grupo é passado para o CT da Barra Funda, para ver se são aproveitados no time profissional.

Como o senhor classifica o nível dos aspirantes do São Paulo?
Cilinho - O futebol de base aqui está muito bem servido. Lamentavelmente o jogador brasileiro está muito mal treinado. Falta coordenação, equilíbrio e fundamento para a maioria deles. Então nós optamos por trabalhar o garoto desde cedo. O São Paulo tem 60 meninos no dente de leite e outros 60 no infantil. Vamos disputar agora a Taça Belo Horizonte de juniores e o campeonato paulista da categoria com um time novo, mas com boa qualidade. E o aspirante também é um time novo. Como eu disse, todos os jogadores dos aspirantes foram servidos ao profissional. Convocamos para integrar o quadro dos aspirantes dois jogadores infantis e dois juvenis. O resto vem dos juniores. A qualidade é muito boa e espero que o grupo possa mostrar seu valor na próxima Copa SP.

Quais são as maiores dificuldades encontradas hoje em dia para revelar estes talentos?
Cilinho - A falta de formação familiar prejudica. Isto é um quesito indispensável. Muitas vezes temos que nos transformar em irmão, pai e mãe para botar o jogador em uma conduta exemplar. O São Paulo faz questão de ter o homem em primeiro lugar. O caráter e os estudos em primeiro lugar. O nosso objetivo é formar o homem e, na seqüência, o atleta. Temos outro problema Alguns garotos, quando se tornam adultos, começam a gostar da noite. Que não foi feita para o atleta. Quem gosta da noite está na profissão errada.

Qual o balanço que o senhor pode fazer após dois anos de trabalho? O que falta para haver uma maior evolução e qual a estrutura que o São Paulo lhe oferece em Barueri? Cilinho - A estrutura do São Paulo é espetacular. Oferece um padrão elevado para que o atleta pense e realize grande. O clube dá todo o tipo de cobertura e conta com profissionais da melhor qualidade em todos os departamentos, para servir bem estes meninos. A dificuldade inicial foi fazer um trabalho seletivo. Cerca de 125 meninos deixaram de jogar no São Paulo, pois nós privilegiamos qualidade, não quantidade. Então tinha muita quantidade, muito jogador de empresário, muita malandragem na base do São Paulo. Jogadores que não tinham condições foram liberados. Proibimos a entrada de empresários - tanto é que a totalidade de jogadores federados pelo São Paulo pertence ao clube. A dificuldade maior, realmente, é encontrar jogadores no ponto para serem trabalhados, mas estamos sempre correndo atrás. Nós não fomos favorecidos com as categorias de bases nos últimos anos, tanto que o clube não ganha nada expressivo há mais de 10 anos. O SP só vai voltar a vencer quando tiver uma base espetacular. Porque daí poderemos fazer uma mescla interessante - jogadores profissionais de caráter, de qualidade, com garotos novos com muita resistência física, habilidade, técnica e velocidade. Você une o útil ao agradável. Foi por isso que na minha gestão como treinador do time profissional, iniciamos um período de quase 10 anos de conquistas. O trabalho dos Menudos foi brilhante e sem medo de errar - e resultou não só em títulos, como formamos o maior time da história do São Paulo Futebol Clube. Então nós temos que fazer uma base espetacular. Temos que ter a felicidade de ser iluminados para selecionar bem os valores e fazer esta mescla. E com isto iremos formar também uma geração nova de são-paulinos que vão se aproximar de flamenguistas e corintianos como as maiores torcidas do país. Nós chegamos perto, mas demos uma caída por causa da falta de títulos expressivos.

O senhor poderia citar algum jogador de destaque que o São Paulo possa utilizar a curto prazo, quem sabe ainda este ano? Há algum craque pintando?
Cilinho - Poderia cometer alguma injustiça, pois é um time novo, em formação. Ele depende, como eu te disse, de formação familiar, de estudos. Nosso atletas estudam aqui no Campos Salles, em Barueri, mantido pelo São Paulo. Temos que ver o comportamento, o caráter e suas amizades. E hoje, temos que avaliar a conduta do grupo, e não de um atleta individualmente, como as grandes empresas fazem. Temos que pensar e planejar como uma grande empresa, ver o trabalho do grupo e sua coesão.

O atacante Ricardinho foi artilheiro dos aspirantes em 2003 e foi dispensado no início deste ano. Por que?
Cilinho - Os valores pedidos pelo Ricardinho estavam fora da realidade. O passe dele estava estipulado em R$ 500 mil e o empresário dele ainda exigia uma participação de 50% no atestado liberatório. Pagar R$ 500 mil por 50% do passe não era viável.

E o Rafinha, que foi tão badalado pela imprensa quando jogava na Lusa. O que falta para ele estourar?
Cilinho - Questão de característica. Ele é habilidoso, tem um domínio excelente, boa visão de jogo, mas tem que se adaptar ao novo sistema em que está. O São Paulo pensa diferente da Portuguesa, planeja sua atividade diferente e também tem outras atitudes. Na Portuguesa, ele era o único jogador que abria atrás dos alas e ficava com a posse de bola esperando o time sair da defesa para o ataque. Nós já atacamos de forma fulminante, queremos rapidez nas nossas ações. Ele está se adaptando e tem se portado bem. Nesta temporada ele fez partidas convincentes e ficamos na expectativa que ele jogue tudo o que sabe para poder integrar o time profissional.

O rápido acesso de jogadores como Diego Tardelli, Ailton, Edcarlos e Marco Antonio ao time principal pode tê-los prejudicado? Houve pressa da diretoria ou eles estavam realmente preparados?
Cilinho - O jogador tem que estar sempre preparado, não pode ser surpreendido. Embora alguns precisem trabalhar alguns detalhes que eu coloquei anteriormente. E o São Paulo, que disputou no ano passado vários torneios, sendo alguns simultâneos, tinha que ter um grupo sólido. Como não dá para ficar contratando a toda hora, foi preciso bater na porta da base. Eles tem muitos recursos, basta termos paciência para eles mostrarem o que sabem.

O que o senhor pensa deste exílio para alguns atletas. No caso do Gabriel, parece ter sido benéfico. Já para Rico e Leonardo Moura, não adiantou. Quando o Tardelli estará preparado para voltar ao time principal e como está sendo feito o trabalho em cima dele?
Cilinho - Foi bom para todos, mesmo para quem saiu do São Paulo, pois estão em times de ponta do futebol brasileiro. Nosso trabalho é de reeducar, confiar no atleta, botar o olho no olho dele e ter conversa franca. Mostrar porque ele errou. É uma questão de detalhes e aperfeiçoamento em algumas funções para que ele esteja no nível dos profissionais da Barra Funda. O Tardelli está passando por isto. Ele não veio na melhor de sua forma física, pois não vinha jogando. E também não se motivou a jogar tudo que sabe. Então estamos fazendo uma bateria de testes para ver a forma que ele se encontra. Vamos aperfeiçoá-lo ainda mais fisicamente e esperar ele dizer para nós se está no ponto de voltar a jogar no São Paulo. Porque não é o Cuca que coloca ele para jogar no time profissional, nem o Cilinho que coloca ele no CCT da Barra Funda. Quem diz a hora é o próprio atleta.

O Cuca está entrando em contato com o senhor para saber como anda a evolução do jogador?
Cilinho - Sim, não só ele como o Marcelo Portugal Gouvêa e o Juvenal Juvêncio estão a par desta movimentação. Os contatos são permanentes e nossa função é passar as informações corretas. Se o Diego não estiver em forma, não estiver com a cabeça e o coração bom para executar suas atividades, ele não será recomendado.

Após a Lei Pelé ficou mais fácil um atleta deixar o clube sem que dê um retorno financeiro a quem revela. O que o senhor pode comentar sobre isto?
Cilinho - A gente tem que estar sempre atento. Já chegamos até a fazer um Boletim de Ocorrência na polícia após tentativas de raptar nossos atletas. Nós temos um patrimônio e devemos preservá-los. Aqui na entrada do CT de Barueri tem até uma placa deixando bem clara a proibição da entrada de empresários. Nós também temos inúmeros arapongas bem informados para saber o que acontece no futebol brasileiro. E como temos recursos para contratar jogadores que surgem pelo país, não precisamos de empresários. Acho lamentável a falta de seriedade de como são tratados estes casos envolvendo empresários. É preciso saber de onde vem todo este dinheiro, quem é que manipula esta lavagem de dinheiro que ocorre no nosso futebol. E as autoridades não fazem nada para mudar.

E como funciona esta rede de arapongas?
Cilinho - São amigos que trabalham comigo em todos os clubes que treino. São pessoas de confiança, ex-jogadores, preparadores físicos, fisicultores, treinadores. Em troca disso, como eu não posso estar em todos lugares do país, eu recebo informações e vou checar. São excelentes arapongas que trabalham de forma convincente e fazem com que muitas informações cheguem para nós antes de nossos adversários.

Durante o ano passado, falou-se que você poderia ser convidado para dirigir o time profissional, mas não tinha vontade. É verdade?
Cilinho - Eu tenho compromisso com a base. Os treinadores do Brasil me conhecem, não fico torcendo pelo insucesso de ninguém. Eu não tenho cartão, não tenho procurador e não tem ninguém na mídia que faz oba-oba para o Cilinho. Vim para o São Paulo para cumprir uma missão, e estou cumprindo a pedido do presidente, do Juvenal e do Maurício Soares, que é meu diretor nas categorias de base. E não estou fazendo isto de favor. Sou profissional e recebo para tanto. Aqui na base, quero contribuir para o time profissional, revelar um time espetacular que ajude a equipe principal a voltar para a conquistar títulos. Eu só gostaria mesmo de voltar ao profissional se fosse da mesma forma quando fiz os Menudos, com o projeto de trazer grandes jogadores da base para mesclar com craques contratados. No São Paulo não se brinca. Queremos ganhar o Paulistão, a Copa do Brasil, o Brasileiro, a Libertadores e o Mundial.

Até hoje a saída do Raí do cargo que ocupava no São Paulo não foi muito bem esclarecida. Rumores disseram que ele não concordava com sua metodologia de trabalho e houve um desentendimento entre vocês dois. O senhor poderia esclarecer se houve mesmo algum problema com o Raí a ponto dele deixar o clube?
Cilinho - Quem pode te responder isso é o próprio Raí. Eu o admiro muito. Desde quando jogava no Botafogo de Ribeirão. Tanto que em uma partida que vencemos o Botafogo no Pacaembu por 1 a 0, ele foi marcado individualmente. E deu muito trabalho, jogou tanto que eu o recomendei para o São Paulo e o Juvenal atendeu meu pedido. Pagamos até mais do que o combinado, pois ele foi convocado para a seleção e teve seu passe valorizado. Tive orgulho de treinar o jogador Raí, assim como tive orgulho de trabalhar com o profissional Raí, mesmo que por pouco tempo. Lamento a saída dele, porque é uma das grandes cabeças do futebol brasileiro. Um profissional culto e de muita capacidade. Gostaríamos que ele estivesse aqui, mas ele abdicou desta oportunidade. Só o Raí pode te dizer porque. Eu posso afirmar para você que o Cilinho gosta muito do Raí. E a recíproca é verdadeira.

Para terminar, o senhor poderia fazer uma avaliação do atual time e, especialmente, do Luís Fabiano.
Cilinho - O Luís Fabiano é jogador de seleção. Entrou contra a Hungria e matou o adversário. Está no caminho certo e precisa ter tranqüilidade para jogar os 90 minutos com eficiência para continuar a ser este goleador espetacular. Já sobre o time profissional, você tem que ir até o CCT da Barra Funda e falar com o professor Cuca (risos).

Reportagem e Fotos: Nelsinho
Edição e Texto: Mooca
Perguntas: Tricolor Paulista Net e internautas do Fórum "O Mais Querido"
Revisão: Cristina Muller