Entrevistas - Raí

Filho caçula de uma família de seis irmãos, todos homens, Raí nasceu no dia 15 de maio de 1965. E é um dos casos que contrariam aquela teoria que, dificilmente saem dois craques de uma mesma família. Após o início promissor no Botafogo de Ribeirão Preto, Raí passou por uma fase difícil no São Paulo Futebol Clube, que durou cerca de dois anos. Parecia que a estrela do futebol da família Vieira de Oliveira se resumiria apenas ao Doutor Sócrates, ídolo da torcida corintiana e praticante de um futebol vistoso e de uma categoria ímpar. Parecia. A partir de 1990, Raí resolveu mostrar a que veio. Não por coincidência, seu futebol começou a aparecer após a chegada do Mestre Telê Santana ao tricolor. Podia não ter a mesma classe do irmão, mas tinha uma liderança igual e um preparo físico "n" vezes superior. Tudo isto aliado ao seu ótimo futebol, fez de Raí o maior ídolo da história do São Paulo Futebol Clube e o melhor jogador brasileiro, enquanto esteve no São Paulo de Telê. Colecionou títulos. Entre os mais importantes, foi cinco vezes campeão paulista, venceu duas Libertadores, um Brasileiro e um Mundial. Também foi campeão na França e participou da conquista da Copa de 1994 pela seleção brasileira. Hoje, é presidente da Fundação Gol de Letra, entidade que ajuda crianças e jovens carentes e tem também como sócio outro ex-ídolo tricolor, Leonardo. Foi da sede de sua entidade que Raí, muito atencioso, concedeu esta entrevista ao site Tricolor Paulista.

No início da adolescência você chegou a jogar basquete. Por que a mudança para o futebol? Houve influência de seu irmão Sócrates?
Raí - Na verdade foi o basquete que eu comecei a jogar por influência. Do Raimar, também meu irmão. Joguei dois anos e neste período eu praticava pouco futebol. Voltei porque tinha um amigo que queria me levar para o Botafogo, justamente porque eu me destacava mais com a bola nos pés que nas mãos.

Como foi o início no Botafogo? O fato de você ser irmão de Sócrates ajudou em alguma coisa?
Raí - Atrapalhou e ajudou. No início o parentesco mais atrapalhou, por causa das cobranças. Depois que eu comecei a fazer bons jogos e me destacar, me ajudou a obter uma projeção maior.

Você se espelhava em algum jogador no início da carreira?
Raí - No Sócrates, com certeza, e também no Falcão, que eu admirava bastante.

Em seu site você diz que ter acompanhado a carreira de seu irmão muito de perto o ajudou a amadurecer mais cedo e não se iludir com qualquer coisa. Você pode dar algum exemplo prático em que este amadurecimento o ajudou?
Raí - Me ajudou em muita coisa. No próprio jogo, pois meu irmão chamava a responsabilidade para ele nas horas mais difíceis e eu também passei a fazer isto na minha carreira. É uma coisa difícil, mas que, quando você consegue e passa a fazer isto sempre, traz muitos benefícios. Quando eu fui para o exterior ele me alertou sobre as dificuldades que eu iria encontrar. E no pós-carreira, vendo seu comportamento após deixar os gramados.

No Brasil é muito difícil jogadores de times do interior serem convocados para a seleção. Você foi uma rara exceção, pois foi convocado pela primeira vez ainda jogando pelo Botafogo. Como foi este seu primeiro contato com a seleção?
Raí - Para mim foi uma grande surpresa. Apesar de eu estar fazendo um bom campeonato, foi totalmente inesperado. Eu entrei no lugar do Bebeto, que havia sido cortado, e tenho isto como uma das minhas maiores vitórias na vida profissional, justamente pela raridade que é um jogador do interior servir a seleção. E isto também chamou a atenção dos times grandes e ajudou em minha ida ao São Paulo.

Logo que você chegou ao São Paulo, era reserva de um meio de campo que tinha Silas e Pita, porém, eles foram embora no meio de 1988 e você virou titular absoluto. Como foi a responsabilidade de substituir grandes ídolos da torcida tricolor?
Raí - Na verdade, quando eu cheguei o Cilinho queria que eu me adaptasse na posição do Careca, que havia sido vendido. E quando ele viu que não dava para eu jogar de centroavante, voltei para a meia. Logo depois, o Silas foi vendido e eu assumi a posição de titular. A responsabilidade era muito grande, pois ele fez parte de uma geração vencedora e de um ótimo time. Mas já estava acostumado às pressões desde o início, no Botafogo, pelo que já foi dito em relação ao meu parentesco com o Sócrates.

Assim como Dario Pereyra e Careca, você demorou algum tempo em estourar no São Paulo. Passava pela sua cabeça que você poderia sair do clube antes de fazer sucesso?
Raí - Não. Mesmo com as dificuldades, eu sabia da minha capacidade e que o São Paulo era o melhor clube para mim.

A chegada de Telê Santana ao tricolor coincidiu com o início do auge de sua carreira. Qual a contribuição de Telê para isto?
Raí - Ele fez comigo o que fazia com todos os jogadores: tirar o máximo de cada um. E também fez uma mudança tática, me deixando mais presente dentro da área, o que me fez também virar um artilheiro, apesar de jogar na meia.

Você foi o grande líder do time do São Paulo nas principais conquistas da história do clube. Como era exercida esta liderança dentro e fora de campo?
Raí - As pessoas viam que quando eu pregava uma coisa, eu era o primeiro a fazer. Nunca falei uma coisa e fiz outra. Quando o jogo estava difícil, também era o primeiro a chamar a responsabilidade. E também me ajudou o fato de eu me dar bem com todo mundo.

Jogadores como Cafu e Ronaldão eram considerados limitados no início de suas carreiras. Ronaldo Luís, Palhinha, Pintado e Dinho eram meros desconhecidos vindos de equipes menores, fora o Cerezzo, tachado por alguns como velho. Antes do início da Libertadores de 1992 dava para acreditar que este grupo poderia ganhar tudo?
Raí - A gente sabia que tinha uma boa equipe e acreditava sim em conquistas. E o que mais fazia a gente acreditar é que estávamos jogando em cima de um planejamento iniciado no ano anterior, dentro da filosofia de trabalho do Telê. Independente do jogador que viesse, tínhamos uma base que dava segurança para buscar os títulos.

Como estava o espírito da equipe às vésperas
do jogo de Tóquio, após as declarações de menosprezo ao São Paulo, por parte da equipe
do Barcelona?

Raí - As declarações motivaram a equipe, mas não foram decisivas. Estar em uma final como esta já era uma motivação mais do que suficiente.

O que passou pela sua cabeça após aquele gol de falta?
Raí - Minha primeira reação foi agradecer ao Telê. Todo mundo viu que eu fiz o gol e já sai correndo para abraçá-lo. E segundo, além de toda emoção pelo título, foi de estar coroando um trabalho muito bem planejado.


Dizem que o jogador brasileiro não é tão valorizado na Europa como o argentino, por causa da fama de voltar na primeira adversidade. Você foi persistente, mesmo após um início ruim, e venceu. Fale um pouco de sua experiência.
Raí - No início foi complicado me adaptar ao jogo, ao clima, a língua e até ao ambiente, pois muitos jogadores ficam enciumados com a chegada de um estrangeiro. Mas fui me adaptando e mostrando meu futebol, o que me fez conquistar o respeito dos franceses. É difícil você conquistar o pessoal fora do Brasil, mas eu consegui, fiz parte de um dos períodos mais vitoriosos do Paris St Germain e deixei meu nome na história do clube.

Além do futebol, você acha que seu interesse pela cultura francesa ajudou a se dar bem em Paris?
Raí - Ajudou muito. Este é um dos maiores motivos para que alguns jogadores não consigam se adaptar no exterior. Pensam só em jogar futebol e continuam com a cabeça no Brasil. O atleta tem que tentar conhecer o lugar onde está, a cultura onde vive. Primeiro, porque é sempre bom aprender coisas novas e segundo porque aos poucos, você começa a se sentir em casa.

Não é comum sair na imprensa declarações suas a respeito do tetra, ao contrário das grandes conquistas com o tricolor. A reserva tirou um pouco o sabor daquela conquista?
Raí - Tenho muito orgulho de ter feito parte do grupo do tetra. E mesmo o título tendo sido criticado, pela forma que foi, aquilo ajudou a fazer o futebol brasileiro voltar a crescer, sendo vice em 1998 e campeão novamente em 2002. Mas, pessoalmente, a conquista da Libertadores de 1992 me marcou mais. Não só por estar vivendo o dia-a-dia do clube, mas também por estar jogando.

Alguma mágoa por não ter sido convocado para a Copa de 1998 apenas por causa de um fatídico jogo no Maracanã, onde a torcida carioca hostilizou dois jogadores paulistas naquele amistoso contra a Argentina - você e Zé Elias?
Raí - Hostilizou o Cafu, também. Tenho mágoa sim, daquele jogo, mas não de ter sido preterido. Eu sabia que não era um dos preferidos do Zagallo e que dificilmente ele me levaria, já que não vinha sendo convocado para outros jogos.

Logo após o jogo contra a Argentina, você chegou para decidir o Paulistão de 1998 contra o Corinthians. E foi recebido pela torcida rival com os gritos de "Raí, pede pra sair". Realmente você saiu...campeão. Fale um pouco sobre a emoção de conquistar um título sobre o Corinthians, logo em sua reestréia no time.
Raí - Foi especial porque era minha volta e um sabor mais especial por ser contra o Corinthians, um grande rival. E o fato de ter sido logo depois do jogo contra a Argentina foi importantíssimo, pois estava voltando para o Brasil com uma impressão negativa. O título e minha atuação facilitaram para eu prosseguir bem nos dois últimos anos de minha carreira.

Já em 2000, após outra conquista do Paulistão, o São Paulo deixou escapar um dos títulos mais ganhos de sua história. O que faltou para a equipe segurar o Cruzeiro nos minutos finais, na final da Copa do Brasil?
Raí - Esta foi uma das poucas decepções que eu tive, pois na minha cabeça estava encerrar minha carreira levantando aquela taça. Realmente o jogo estava ganho e perdemos por dois detalhes: a falta, que já saiu de um lance errado e continuou errado, quando a barreira pulou e a bola passou por baixo; e também pelo Müller, que estava no banco, entrou no segundo tempo e mudou toda a história da partida.

Sente alguma mágoa por não ter tido um jogo de despedida, já que até camisas comemorativas foram vendidas?
Raí - As camisas realmente ficaram muito bonitas, tem gente que me pede até hoje. Fiquei chateado na época, achei que faltou um pouco de atenção para organizar o evento. Quando eu vi que iria sair uma coisa mais ou menos, preferi não fazer o jogo.

Porque ficou tão pouco tempo no cargo administrativo que ocupava no São Paulo?
Raí - Me convidaram para ser um dos responsáveis da categoria de base e eu apresentei um projeto de trabalho, que foi aceito. Inclusive que eu participaria de decisões importantes, o que eu achava merecido pela minha capacidade e história no clube. E entre o dia que eu apresentei o projeto e uns 15 dias após eu assumir, eles já tinham montado toda a equipe e mudado tudo. Via que muitas coisas precisavam ser melhoradas e não tinha respaldo da diretoria. Então achei melhor sair, do que servir de enfeite.

Pretende voltar a trabalhar em alguma coisa relacionada ao futebol?
Raí - Pretendo.

Qual sua opinião sobre a atuação de seu amigo e sócio Leonardo, hoje um respeitadíssimo executivo do Milan?
Raí - Lá é diferente do que eu disse aqui. Eles deram confiança para o Léo poder trabalhar e ele mostrou que pode ser importante. Eu brinco com ele dizendo que se parar agora já está bom, pois desde que assumiu como dirigente foi campeão da Copa dos Campeões, do Campeonato Italiano, além de ter sido importante com o grupo, ajudando a trazer grandes jogadores, como o Kaká.

Como anda o trabalho da Fundação Gol de Letra, que tem unidades em São Paulo e Niterói? Quais os resultados apresentados até o momento?
Raí - Está indo muito bem, são quase cinco anos de trabalho e a gente tem uma geração de jovens que passou pela fundação, foram formados praticamente pela fundação e que hoje estão trabalhando, tem seus projetos dentro do bairro e os maiores resultados são estes: em primeiro a transformação pessoal, sem medo de errar tem mais de 100 jovens que mudaram suas vidas e que hoje estão em outra realidade. Temos hoje 900 crianças e jovens aqui na fundação. Mais que isso é um trabalho que envolve os pais, os jovens, as crianças que tem influencia sobre o bairro, para melhorias no próprio bairro através deles, esse era o objetivo e é o que está acontecendo. Com certeza quanto mais o tempo passar e mais jovens forem passando pela fundação, a tendência é que esse bairro sofra uma transformação social que a gente espera.

E a unidade francesa?
Raí - Lá não existe um trabalho voltado para as crianças e jovens franceses. A unidade da Gol de Letra de Paris serve para ajudar a captar recursos para as nossas unidades do Brasil.

Há planos de expansão do projeto para outras regiões?
Raí - Tem. A gente espera estar dentro de dois anos concluindo um material com toda nossa história e objetivos, mostrar os resultados. E a partir daí, caso alguma prefeitura queira montar uma unidade em sua cidade, vamos dar todo o suporte para isto.

Ping - Pong com Raí

1. Qual a melhor equipe que você já fez parte e o melhor time que você enfrentou?
O São Paulo da Libertadores e Paulistão de 1993 e o Barcelona de Cruyff, em 92.

2. Qual o melhor jogador, na sua posição, que você já viu atuar?
Vou citar três que eu joguei contra - Maradona, Zico e Zidane.

3. Qual a jogada inesquecível que você tenha participado (pode ser um gol, uma assistência, uma tabela...)?
O gol de falta contra o Barcelona.

4. Qual o melhor marcador que você enfrentou?
O Capitão, na época da Portuguesa.

5. Deixe uma mensagem aos internautas do site Tricolor Paulista Net.
Gostaria de dizer que continuo acompanhando e torcendo muito pelo São Paulo, que com certeza faz parte da minha vida.

Títulos e conquistas na carreira
1987 - Campeão Pan-americano (Seleção)
1989 - Campeão Paulista
1989 - Campeão do Torneio Quadrangular (México)
1991 - Campeão Paulista
1991 - Campeão Brasileiro
1991/92 - Bicampeão da Taça Barcelona (Espanha)
1992 - Campeão da Taça Libertadores da América
1992 - Bicampeão Paulista
1992 - Campeão do Torneio Ramon de Carranza (Espanha)
1992 - Campeão do Torneio Tereza Herrera (Espanha)
1992 - Campeão Mundial Interclubes
1993 - Bicampeão da Libertadores da América
1993 - Campeão do Troféu Cidade de Santiago (Chile)
1994 - Campeão da Copa do Mundo (Seleção)
1994/95 - Campeão Francês
1995 - Campeão da Copa da França
1995 - Campeão da Copa da Liga
1996 - Campeão da Recopa da Europa
1997 - Campeão da Copa da França
1998 - Campeão da Copa da Liga
1998 - Campeão Paulista
2000 - Campeão Paulista

Texto e edição: Mooca
Reportagem e fotos: Nelsinho Calil
Colaboração: Cristina Müller Calil e Leandro Leite