Entrevistas - Cidão

Um vida de amor ao tricolor

O título desta matéria é o lema da torcida organizada Dragões da Real. Mas poderia muito bem ser direcionado apenas a um de seus torcedores - Aparecido Donizetti. Não conhecem? E seu eu falar simplesmente, Cidão? Eu arrisco a dizer que desconhecer o Cidão é desconhecer o Morumbi. Nem se for de vista, é impossível não se deparar, durante os jogos do São Paulo, com esta figura carismática, que antes e após os jogos vende artigos de sua torcida e do São Paulo. Aos 46 anos, Cidão já rodou o Brasil e a América para acompanhar o tricolor, paixão que conheceu no final da década de 60. Hoje, com toda certeza, ele pode ser considerado um dos três torcedores mais famosos do São Paulo, ao lado da torcedora-símbolo Filhinha e de Hélio Silva, fundador da Tusp (Torcida Uniformizada do São Paulo), a primeira organizada a existir no Brasil. Nesta entrevista concedida ao Tricolor Paulista.Net, Cidão fala do início de seu amor pelo tricolor, conta casos engraçados que ocorreram em caravanas, critica os diretores do futebol brasileiro e o projeto Sócio-Torcedor do São Paulo e conta uma história que pouca gente deve conhecer, sobre a fundação do Clube dos Treze. Confira!

Nota do TPO bate-papo com o Cidão foi realizado no restaurante Meaípe (do qual também é gerente), de seu amigo Paulo César Casagrande, regado a muita cerveja e a uma excelente moqueca capixaba com camarão. Além do staff do site (Nelsinho, Leite e Mooca), estiveram presentes os colaboradores e amigos Gustavo Fernandes, Glauco, André Rossi e Elaine. O endereço do local está no final da matéria. O Tricolor Paulista.Net aprovou e recomenda.

Raio X
Nome: Aparecido Donizetti, o Cidão
Data de nascimento: 5 de janeiro de 1958
Local: Mogi das Cruzes - SP
Melhor time que já viu do tricolor: "o time dos Menudos do Cilinho, que ganharia do time do Telê em uma partida"
Melhor time que já viu jogar contra o tricolor: "nunca vi"
Melhor jogador que já viu com a camisa do São Paulo: "teve vários, mas o melhor foi o Raí"
Gol mais bonito que viu no estádio: "o do Pita contra o Palmeiras, no empate por 4 a 4 em 1985, onde ele driblou todo o time deles, e o do Careca contra o Guarani, na prorrogação da final do Brasileiro de 1986"

Tricolor Paulista.Net - De onde começou a paixão pelo tricolor?
Cidão - Eu era um molequinho lá em Mogi das Cruzes. Meus pais estavam doentes e não podiam cuidar de mim. Então fui parar em um colégio interno, em Carapicuíba. Voltei para Mogi com 12 anos, e fui trabalhar de engraxate em uma lanchonete, cujo dono, um português, era são-paulino roxo. E quando o São Paulo ganhava ele me dava uma boa caixinha. Claro que comecei a torcer para o São Paulo vencer sempre. E passei a ser são-paulino, fiquei fanático, comecei a ir em jogos. O primeiro jogo para valer que eu fui foi na final do Paulistão de 1975, contra a Portuguesa, onde o tricolor venceu na disputa de pênaltis. Depois eu virei sócio da Independente, minha carteirinha era a de número 662. Participei de alguns jogos com a torcida e, em 1981, fiz minha primeira caravana, para Porto Alegre, no primeiro jogo da final do Campeonato Brasileiro daquele ano, contra o Grêmio. Até faltei no trabalho para isto. Perdemos de 2 a 1 e teve um quebra-pau com os gremistas, que chegaram a quebrar nossos ônibus. No jogo de volta, no Morumbi,perdemos novamente por 1 a 0.

Leite - Mas acertaram os gremistas (rindo)?
Cidão - Com certeza, eles voltaram para o Sul sem os vidros dos ônibus. Mas o que fiquei mais mordido é que eles também voltaram com o título. Pouco tempo depois, em 1983, outro jogo ficou marcado para mim. Em um jogo da seleção, pela Copa América (na época a Copa América não tinha sede fixa), as torcidas paulistas foram contratadas para vaiar o Parreira. Mas até hoje eu não recebi nada (risos).

Mooca - Com quem ficou o dinheiro?
Cidão - Com um pessoal que nem é da Independente hoje. Sei que eu rasguei minha carteirinha depois deste jogo.

TP - Foi aí que você fundou a Dragões?
Cidão - Eu fui convidado para assumir a presidência da Força Jovem Mais Querido. Convidaram eu, o Sílvio Issao, o Claudinho e outras pessoas que ainda são da Dragões até hoje. Na época, a torcida cresceu e fundiu com a Dragões da Real Torcida Jovem. Foi então que nasceu a Dragões da Real de hoje. Fui presidente da torcida por 10 anos, com o Giuseppe Carbone (Nota: pai do Giuseppe, grande amigo do Tricolor Paulista.Net) como meu vice, já que eu até trabalhava na loja dele.

TP - O que mais lhe marcou nessa época?
Cidão - Tenho boas lembranças da administração do Carlos Miguel Aidar. Ele, o José Douglas Dallora e outros dirigentes da época apoiavam muito as torcidas. Na semifinal contra o América do Rio, no Brasileiro de 1986, o Aidar cedeu 50 ônibus para dividir entre as torcidas. Ficaram 30 para a Independente, 15 para nós e cinco para a antiga Tusp, do Hélio Silva. Foi um jogo histórico e foi lá que o Cidão começou a ficar famoso no Morumbi, já que eu que consegui os ônibus para todos. Mas por causa de algumas fofocas e comentários invejosos, a diretoria acabou cortando nossos ônibus para a final, em Campinas, contra o Guarani. Mas eu não desisti e consegui mais de cem táxis para levar a gente. E nem preciso falar que foi um jogo muito feliz, com o gol do Careca no final da prorrogação e o título nos penais. Aliás, vale acrescentar que o Careca foi um ídolo inesquecível nosso.

TP - E os jogos da Libertadores, as caravanas. Conte um pouco desta fase.
Cidão - A gente sempre recebe todos os estrangeiros muito bem no Morumbi. E eles tem espaço aqui. Já lá fora, nós somos muito mal recebidos. É guerra mesmo. No Paraguai, por exemplo, era terrível. Em 1993, contra o Cerro Porteño, quiseram roubar um diretor do tricolor e nós fomos ajudá-lo. Conseguimos impedir a tempo. Em 1994, contra o Olímpia, já na divisa com a Ciudad del Leste, os paraguaios diziam: "os são-paulinos vão morrer aqui". E a gente xingava (rindo). Neste jogo teve muita confusão, nem conseguimos ver a partida direito. Teve gente que saiu para defender os ônibus, tivemos que escondê-los para não serem quebrados. Ouvi a disputa de penais que nos levou para a final em um radinho vagabundo, que comprei lá fora do estádio.

TP - E as finais de 1992 e 93?
Cidão - Não estive no Chile, mas fui para Rosário em 1992, contra o Newell's. Foram 38 horas de viagem. Chegando no hotel onde estava a delegação do São Paulo, onde fomos buscar os ingressos, teve um torcedor que foi xingar os argentinos. E quebraram justamente nosso vidro traseiro do ônibus. A volta foi difícil, com um frio abaixo de zero.

TP - Cidão, na boa, quanto vocês beberam para agüentar este frio?
Cidão - Já na ida, com os vidros inteiros, tomamos um garrafão de cinco litros de pinga que compramos em Santa Catarina. O pessoal até achava estranho - um bando de malucos sem blusa, no frio argentino. Na volta, eu e o Ferrão, na época presidente da Independente, voltamos lá atrás, pegando aquele gelo. Tomamos cinco litros de vinho em Uruguaiana para aquecer. Mesmo assim foi terrível. Pior que o motorista errou o caminho. Achei estranho quando vi um "bem-vindo ao Uruguai" (rindo). E lá vai a gente fazer o retorno. Sei que na volta nem viemos para São Paulo. Fomos direto para o Rio de Janeiro, pois o São Paulo jogava contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. No total, foi uma semana na estrada.

TP - Cidão, a quantas cidades você foi para acompanhar o São Paulo?
Cidão - Já fiquei cinco anos direto sem perder um único jogo no interior, pelo Paulistão. No Brasil são muitos lugares, nem dá para lembrar todos. Fiquei 20 dias na estrada, sem voltar para São Paulo, só acompanhando o tricolor. Um destes jogos foi em Aracaju, onde vendi muitas camisas da Dragões. A história engraçada é que na volta, no ônibus, apareceram pássaros selvagens, que um pessoal pegou em um posto de gasolina. O Ibama veio atrás e deu um rolo enorme. Mas no final devolvemos os pássaros e ficou tudo bem.

TP - E como era sua relação com as outras torcidas?
Cidão - Antigamente até tínhamos uma relação boa com a torcida do Corinthians, porém, a do Palmeiras sempre foi nossa inimiga. Nunca houve paz entre nós. Desde a época em que a TUP era a mais forte deles. Depois veio a Mancha Verde e piorou de vez. Lembro que em 1989, naquela final contra o Vasco, alguns integrantes da Mancha vieram invadir a sede da Dragões. Tinham mais de 50 pessoas, contando alguns da Força Jovem do Vasco, aliada deles. Só que eu fiquei sabendo e chamei o Batalhão de Choque. Na hora que eles chegaram, os policias estavam lá e levaram todos em cana.

Mooca - Cidão, quando nós marcamos de fazer esta entrevista, você me disse que tinha uma história muito interessante para contar sobre o Clube dos Treze. Manda ver!
Cidão - Nós fomos procurados pelo Aidar (principal fundador do Clube dos Treze junto com Marcio Braga, atual presidente do Flamengo e que também exercia o cargo na época), que manifestou a idéia de fundar o Clube dos Treze. E junto com o presidente do Internacional, saiu uma idéia de fazer um Congresso, em Porto Alegre, com as torcidas organizadas dos principais clubes, para falar sobre a idéia. No final, só ficaram de fora os representantes do Palmeiras. Nós estávamos com as duas maiores, a Independente e a Dragões. Na época, os clubes estavam descontentes com aquela fórmula do Brasileirão, onde participavam 40, 50 clubes. Eles perdiam muito dinheiro durante o campeonato, com o excesso de jogos e as longas viagens. E precisavam da força dos torcedores para pressionar e mudar a fórmula, já que a CBF não tinha interesse em um campeonato menor. Foi aí que saiu a Copa União. Por isto que eu brinco: os verdadeiros fundadores do Clube dos 13 foram as torcidas e não os dirigentes (rindo). Eu só não fiquei no outro dia da reunião das torcidas, porque isto aconteceu às vésperas da final entre São Paulo e Corinthians, pelo Campeonato Paulista de 1987. E aquele jogo foi o nosso auge, quando entramos com mais de 90 bandeiras.

TP - Um grande número, mesmo. E porque a Dragões diminuiu tanto de tamanho? Lembro de vocês, também estavam enormes naquela final do Paulistão de 1992, contra o Palmeiras, uma semana após conquistarmos nosso primeiro mundial.
Cidão - É um reflexo, foi um desgaste automático. Não só da Dragões, mas de todas as torcidas e dos torcedores comuns, também. Os estádios estão vazios porque hoje os dirigentes querem ser donos do futebol, mudam datas, horários, colocam os jogos de domingo às 18 horas. Fora que não existe renovação. Os dirigentes atuais tinham que dar chances para os mais jovens cuidarem dos clubes e das entidades.

Todos - A violência não ajudou?
Cidão - Acho que é um reflexo da sociedade. Hoje tem muitos jovens na torcida que não brigam em sindicatos por melhoria no emprego, não possuem um fanatismo político. O único fanatismo é o futebol. E é lá que eles extravasam. Lógico que a diretoria das torcidas tem que ajudar a controlar esta violência, porém, nem sempre é possível. Fora que tem muito moleque que já entra na torcida com o pensamento voltado para a briga. Mas parece que agora a lei está mais forte, estamos vendo torcedores sendo presos. A Dragões, inclusive, foi uma das primeiras a entregar ao Ministério Público uma ficha completa de todos nossos associados.

TP - Uma das estratégias do São Paulo para atrair torcedores é o projeto Sócio-Torcedor. O que você acha disso?
Cidão - O projeto está aí para arrecadar dinheiro para o clube, mas não estou vendo nenhum retorno para a torcida. Não vejo melhorias nas arquibancadas, no estádio. Já que eles se recusam a dar ônibus para as organizadas, porque não fazem uma caravana para quem é sócio-torcedor, com passagens de graça? Por que o sócio-torcedor não pode ir na Festa Junina do São Paulo, pagando metade? Eu acho pouco apenas distribuir alguns brindes e oferecer o benefício da metade do ingresso dentro do Morumbi. Por que também não bancar a metade do ingresso nos jogos fora de casa, para quem quiser acompanhar o tricolor?

TP - Cidão, para encerrar. Como foi ser convidado para gravar um depoimento no Memorial do São Paulo Futebol Clube? Você, junto com a Filhinha e o Hélio Silva, eram os únicos torcedores a receber esta honra?
Cidão - Eu era um torcedor conhecido e me chamaram para gravar. Mas ficou apenas três anos lá. O Edson Lapolla, que na época, se eu não me engano, era diretor de comunicação, tirou meu depoimento. Por quê? Até hoje eu não sei.

Glauco, revoltado com a revelação - Eu vou em estádio desde pequeno e sempre vi o Cidão no estádio. E garanto que o Cidão é muito mais patrimônio da torcida do São Paulo que este tal de Lapolla. Aliás, faz uma enquete na torcida do São Paulo perguntando quem conhece o Cidão e quem conhece este sujeito. Vai dar Cidão de goleada!

(Nota do Tricolor Paulista.Net - Edson Lapolla foi o mesmo diretor que garantiu, no dia anterior à venda de Kaká, que ele não iria sair do Morumbi. Estamos dizendo um dia, não um mês ou um ano).

ServiçoRestaurante Meaípe: rua Fradique Coutinho, 276. Telefone: 3088.9103. E-mail: rlcasagrande@ig.com.br. Aberto de terça à domingo. Mais informações podem ser conferidas no site www.moquecapixaba.com.br.