No próximo mês de Abril o São Paulo Futebol Clube realiza a eleição para a presidência da diretoria, que comandará o clube pelos próximos 3 anos, de acordo com mudança no estatuto, votada recentemente.
O ex-judoca Aurélio Miguel, medalha de ouro nas Olimpíadas de 1988, na Coréia do Sul, e conselheiro do clube, foi o nome escolhido para representar a oposição, que prega mudanças na atual gestão do futebol e a independência da área social.
Em entrevista para este estudante de jornalismo, Aurélio Miguel fala de suas idéias e conta um pouco de sua experiência no cargo de vereador, na cidade de São Paulo. Mostrando-se ligado às questões do clube não deixou passar em branco nem o significado das estrelas na camisa do Tricolor.
Em breve neste mesmo espaço estará disponível uma entrevista com um representante da situação.
Meus sinceros agradecimentos ao Aurélio Miguel, pela receptividade durante os contatos, a seu assessor, Carlos Bortole, e a Renata Lutfi, do site Tricolorpaulista.Net.
TP.NET - Futebol e judô combinam?
Eu estou envolvido com o esporte desde os 4 anos de idade. Aprendi muito neste tempo. E uma das principais lições que trago é não temer desafios. Não tenho dúvidas que os princípios que aprendi no judô como disciplina, determinação, desprendimento, coragem e perseverança se encaixam perfeitamente em qualquer modalidade esportiva, inclusive no futebol.
TP.NET - A história do São Paulo Futebol Clube é pautada pela ousadia e pioneirismo de seus dirigentes. Isso o inspira na busca pelo posto de dirigente máximo do clube?
O que faz com que eu busque a presidência do São Paulo é justamente olhar para trás e ver que aqueles dirigentes que fizeram a história do clube também não concordariam com o que atualmente acontece em seus bastidores. A mudança unilateral de um estatuto para que dirigentes se perpetuem no poder não condiz com as marcas de ousadia e pioneirismo que levaram o São Paulo ao vanguardismo do futebol brasileiro.
TP.NET - Quando surgiu a vontade de representar a oposição na eleição para a presidência da diretoria?
O meu nome foi consenso entre o grupo de oposição que conta com 5 ex-presidentes, ex-diretores, conselheiros e associados que não concordam com os rumos da atual direção.
TP.NET - Não acha que pode fazer mais pela cidade de São Paulo, do que pelo São Paulo Futebol Clube?
Eu fui eleito por mais de 38 mil pessoas para o cargo de vereador de São Paulo e acredito que estou fazendo um bom mandato nestes pouco mais de 3 anos (ver site www.aureliomiguel.com.br). Com a mesma garra e determinação que encarei os desafios que se colocaram em minha vida, tenho certeza de que, caso eleito presidente do São Paulo, serei um dirigente esportivo à altura da história são-paulina.
TP.NET - A história do judoca Aurélio Miguel tem ligação com a história do clube? Conte-nos a respeito.
Eu comecei a treinar judô no São Paulo aos 4 anos de idade por indicação médica, já que eu sofria de problemas respiratórios. Para me desenvolver ainda mais no judô, me transferi para a Associação Vila Sônia, mas sem deixar de freqüentar o clube. Com o desenvolvimento de minha carreira esportiva as constantes viagens e competições no exterior se intensificaram, chegando a ficar 7 meses por ano em competições e treinamentos na Europa e Japão. Apenas no Japão, terra do judô, estive 25 vezes. Em 83 fui campeão mundial júnior e em 84 campeão mundial universitário. Neste mesmo ano fui cortado das Olimpíadas de Los Angeles por não concordar com o presidente da Confederação Brasileira de Judô, Joaquim Mamede. Em 87 fui medalhista de bronze no Campeonato Mundial disputado na Alemanha e no ano seguinte fui campeão olímpico em Seul, Coréia do Sul. Após o título entrei novamente em rota de atrito com a direção da CBJ e fiquei afastado dos tatames por quase 3 anos. Em 93 fui vice-campeão mundial e em 96 medalha de bronze nas Olimpíadas de Atlanta, a qual disputei machucado. Em 97 fui novamente vice-campeão mundial. Encerrei minha carreira em 2001. Em 2004 fui convidado por amigos para concorrer a uma vaga no Conselho Deliberativo do São Paulo, clube onde comecei minha trajetória esportiva. Para minha surpresa e satisfação, fui eleito como o conselheiro mais bem votado da história são-paulina. Assumi a condição de coordenador de judô e montamos uma forte equipe. Colocamos 3 atletas nas Olimpíadas de Atenas/2004. Danielle Zangrando e Leandro Guilheiro, e Antonio Tenório na Paraolímpiada. O Leandro foi bronze e Tenório sagrou-se tricampeão paraolímpico. Desde Adhemar Ferreira da Silva, em 1952, o São Paulo não conquistava uma medalha olímpica.
TP.NET - O primeiro passo é ser reeleito conselheiro do clube. Acredita nessa possibilidade e na oportunidade de representar a oposição na eleição para a presidência?
Tenho convicção que serei eleito conselheiro e posteriormente serei o candidato da oposição na disputa pela presidência do clube.
TP.NET - Acredita que a falta de experiência como dirigente de futebol pode atrapalhar uma futura gestão?
Uma gestão não se faz com apenas um homem. Não sou personalista. Tenho plena confiança em minha história dentro do esporte e na experiência das pessoas que estarão comigo em uma eventual vitória. Estou preparado. Também não tinha experiência como vereador, e acredito estar fazendo um bom trabalho para a Cidade de São Paulo.
TP.NET - O que tem a dizer acerca das declarações do diretor de planejamento do clube, Marcelo Portugal Gouvêa, que, em defesa da atual administração, rebateu críticas suas sobre a falta de transparência, dizendo que o senhor não comparece às reuniões do Conselho Deliberativo há um ano?
As reuniões que não compareci foram devidamente justificadas, pois estava em sessão no plenário da Câmara Municipal de São Paulo. O que não me impediu, aliás, de tomar plena consciência dos assuntos em pauta. Assuntos estes que regularmente já chegam definidos pela atual diretoria. Existe hoje no conselho do São Paulo um senta-levanta que aprova tudo o que a situação quer. Prato feito eu não aceito. Os contratos que quero ver eles não me mostram, nem a mim e nem a qualquer outro Conselheiro de Oposição.
TP.NET - Quem são as pessoas que o apóiam dentro do clube e no que elas poderão ajudá-lo no caso de vitória no pleito em Abril?
Conto com o apoio de 5 ex-presidentes, ex-diretores, conselheiros e muitos associados. São pessoas com históricos vencedores dentro do São Paulo. Que participaram das campanhas do bi-mundial, que descobriram talentos como Kaká, Júlio Batista, Edmilson, Fábio Aurélio, Denílson e Edu, que criaram o Projeto Sócio-torcedor, o GESP (grupo de executivos são-paulinos), etc. Enfim, são-paulinos e competentes.
TP.NET - Como você pensa o São Paulo para os próximos três anos, em caso de sucesso nas eleições? Detalhe-nos seus planos e projetos.
Minha plataforma não é apenas para os próximos 3 anos. Ninguém pode pensar um clube como o São Paulo apenas para daqui a 3 anos. Trabalharei para que o futebol continue forte, mas com trabalho de qualidade na transição futebol de base/profissional; apostarei numa área social independente, que tenha vida própria e não fique a reboque do futebol, e abrirei minha administração para todos, descentralizando e acabando com esta história de que só uma pessoa entende de tudo, como acontece atualmente.
TP.NET - Os demais clubes considerados grandes, de São Paulo, acordaram a pouco para a nova realidade, onde o investimento no marketing é algo essencial. Como o senhor pretende manter o São Paulo à frente dessas iniciativas e servindo como modelo para seus co-irmãos?
O São Paulo sempre foi referência no marketing do futebol brasileiro. Isto não ocorreu agora.
Nos últimos dias fomos surpreendidos com a denúncia de um grande jornal da cidade de São Paulo, dizendo que o clube despeja seu esgoto em um córrego que passa em suas proximidades. O marketing do São Paulo tem que se basear em ações concretas advindas da postura imposta pela administração do clube. Estamos no século XXI e não podemos conceber um clube do tamanho do São Paulo que não cumpra suas obrigações como agente cidadão na maior cidade da América Latina. Então do que adianta eu entregar bandeirinhas na entrada do estádio e dizer que tenho um plano para transformar o torcida são-paulina na maior do país, se não consigo nem cumprir minhas contrapartidas sociais com esta comunidade que pretendo ter como minha aliada e torcedora? Há um claro desencontro entre o que está sendo feito e o que está sendo vendido para o grande público.
TP.NET - A população brasileira tem, em geral, uma percepção de que a política do país é "um mundo sem leis" onde prevalecem a troca de favores e a máxima de que a corrupção é prática comum. Como sua curta experiência como vereador de São Paulo poderá ajudá-lo na gestão do clube?
Existe a percepção dos fatos e a realidade dos fatos. A generalização é um mau hábito em qualquer parte do mundo. Nos Estados Unidos existe a concepção que latinos são a escória do mundo e que todo árabe ou muçulmano é terrorista. Muitas agências de turismo da Europa vendem o Brasil como um país do samba, carnaval e mulheres bonitas. Na Espanha, estudantes brasileiros são presos e deportados. O fato é que existe gente boa e ruim em qualquer ramo de atividade. Na política, no futebol e no jornalismo também existem os dois lados. Minha experiência como vereador será no sentido de conviver com o contraditório, ouvir as diversas correntes políticas que existem no clube; dialogar com a comissão técnica, enfim, ser democrático.
TP.NET - Qual foi sua contribuição para a cidade de São Paulo, enquanto vereador?
Meu trabalho como vereador é extenso. Aprovei projetos de lei ligados ao esporte, transporte, proteção animal, educação e saúde. Convido o leitor a visitar meu site www.aureliomiguel.com.br e avaliar meu desempenho parlamentar. Lá presto contas de todas as minhas iniciativas na Câmara Municipal.
TP.NET - Qual é seu pensamento acerca da idéia de o clube incluir o estádio do Morumbi no projeto para a Copa 2014?
O estádio do Morumbi tem todas as condições de ser sede da Copa do Mundo de 2014. Independente do presidente que estiver comandando os destinos do clube deveremos receber jogos do Mundial.
TP.NET - No caso de não sair vencedor na eleição de Abril pensa em se candidatar a um novo mandato na Câmara Municipal?
No momento minha preocupação é continuar cumprindo um bom mandato como vereador e trabalhar minha candidatura a presidente do São Paulo. O resto é especulação.
TP.NET - O São Paulo já foi visto como o maior incentivador dos esportes amadores no Brasil, carregando inclusive em sua camisa duas estrelas que representam as medalhas de ouro conquistadas por Adhemar Ferreira da Silva. Acredita que esteja na hora de o clube voltar novamente seus olhos para esses esportes? Quais suas idéias a respeito?
Apenas uma correção: as estrelas amarelas correspondem aos recordes mundiais do Adhemar Ferreira da Silva e não às suas medalhas olímpicas.
Quanto aos esportes amadores, é importante dar-lhes a importância que merecem. Um clube do tamanho do São Paulo não pode se dar ao luxo de deixar modalidades olímpicas que lhe trouxeram tantas glórias no passado esquecidas em alguma sala da área social. Existem hoje leis de incentivo fiscal que podem fomentar a prática dessas modalidades, dando oportunidade aos associados e militantes que querem fazer carreira esportiva no Brasil. Está claro que hoje no São Paulo não há vontade política nem material humano para encarar um desafio como este.
TP.NET - Como vencer a desconfiança da maioria dos torcedores e o favoritismo de Juvenal Juvêncio?
A desconfiança se dissipa a partir do momento em que, sem paixão, avaliarem minha história esportiva e o que posso fazer administrativamente para o crescimento do clube. Não sou um aventureiro, conheço os meandros do esporte; sei como age a maioria dos dirigentes, principalmente aqueles que se agarram ao poder. Quanto ao favoritismo do atual presidente, é algo que não me assusta. Sou competidor e sei que ninguém ganha na véspera. Aliás, já tivemos favoritismo igual ao hoje citado, em que a oposição venceu as eleições no Clube.
TP.NET - O que, sob seu ponto de vista, está errado na atual gestão do São Paulo e precisa ser corrigido com urgência?
A falta de transparência nos contratos firmados, a centralização de poder, a mudança de estatuto, a falta de uma estrutura profissional no CT de Cotia que consiga realizar uma transição eficiente dos atletas da base para o profissional, enfim, motivos não faltam para que se promova uma mudança de hábitos e pensamentos.
TP.NET - O São Paulo precisa do Aurélio Miguel? E o Aurélio Miguel, precisa do São Paulo?
Eu preciso de um São Paulo Futebol Clube forte, ético, democrático. Que reflita fora do campo a qualidade que os jogadores demonstram nos gramados. Eu preciso de um São Paulo com pluralidade de idéias, com uma relação menos dependente de empresários. Eu preciso de um São Paulo cidadão, que cumpra suas contrapartidas sociais com a população paulistana, que respeite o meio-ambiente, que trabalhe socialmente a população de baixa renda que vive em seu entorno.
Já o São Paulo precisa de renovação. Precisa de novas idéias, de alguém que tenha sentido na pele o que acontece com um atleta antes durante e depois de uma competição. Que saiba identificar os dirigentes que querem se locupletar no esporte. E que defenda, antes de tudo, os interesses do clube que representa.